domingo, 22 de janeiro de 2017

A Brasileira

Somos. agora levados por um ruído estranho que nos chama. No seu movimento constante, está a ouvir-se o moinho eléctrico, em pleno funcionamento, a moer, a moer, os grãozinhos de café, bem torrados, até que se transformem em finíssimo pó, do qual se obterá a genial bebida, universalmente apreciada. 


Sentemo-nos aqui mesmo, à entrada, nestas primeiras cadeiras, pouco cómodas, é certo, mas fortes e de grande duração, esplêndidas para dar na cabeça de qualquer parceiro, óptimas cadeiras forradas de bom coiro, no fundo e nas costas. E, enquanto esperamos que nos sirvam as bicas já pedidas, recordemos como nasceu a Brasileira do Chiado, fundada em 19 de Novembro de 1905, pela firma Teles & C.ª nesta casa que continua a ter os números 120 e 122, e que antes fora de J. Miranda Saraiva, com artigos de camisaria.

Café A Brasileira [ca. 1911]
Rua Garrett, 120-122

Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

A Brasileira abriu só para a «venda do genuíno café do Brasil, de Minas Gerais, depois de convenientemente torrado, oferecendo-se gratuitamente uma chávena a todo o comprador». Com esse sistema, fez-se um arremedo do que a mesma firma estabeleceram no Porto em 4 de Maio de 1903 na Rua Sá da Bandeira, n.º 71.
Entretanto, também em Lisboa aparecia uma edição de «A Brasileira» dedicada aos consumidores da capital e esse folheto proporciona-nos a retirada das seguintes preciosas informações:
«Está sofrendo uma completa transformação a parte baixa do edifício, à Rua Garrett (Chiado), onde se acha instalada A Brasileira, para se adaptar a uma sala de café, com todos os modernos requisitos de comodidade e de elegância, destinada às pessoas que não quiserem aproveitar-se da vantagem das nossa distribuição gratuita de chávenas de café. Ali poderão torná-lo nas melhores condições de conforto e descanso. A Brasileira continuará a oferecer, gratuitamente, uma chávena de café a todo o comprador.»

Publicidade ao café A Brasileira, 1912
Publicidade ao café A Brasileira








Publicidade ao Café A Brasileira










A Brasileira teve, no principio, como já  se disse, um nobre gesto de generosidade: servia gratuitamente, aos seus fregueses de café a peso, a chávena da deliciosa infusão. Porém, em 1915, já cobrava, indistintamente, $04 pela xícara pequena e $05 pela xícara grande..

As obras, que o proprietário Teles & C.ª realizou, poucos anos depois de o Café começar a constituir «instituição» do Chiado, foram dirigidas por Norte Júnior. A renovação com panneaux de pintura data de 1922 [...]; ostentam-se nos interiores da Brasileira pinturas de José de Almada Negreiros, Eduardo Viana, António Soares, Jorge Barradas, Stuart Carvalhais e Bernardo Marques.

Café A Brasileira [ca. 1966]
Rua Garrett, 120-122 
Garcia Nunes, in Arquivo Municipal Lisboa


Bibliografia
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987
ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, vol. XII, 1939

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Beco e Pátio das Canas

Esta Adiça vale um poema popular. Deixemos, por momentos, seguir a Adiça — que morre nas portas do Sol, ao alto — e enfiemos pela Galé. Em frente está o Pátio das Canas, no alto do bêco dêste distico. 

O Pátio das Canas é de um bairrismo puro, mais que modesto, e que bem se marca, garridamaente, quando das festas do Santo António e do S. João. Agora, ao sol e aos gatos, parece adormecido: também o pitoresco tem as suas horas de acalmia.

Beco e Pátio das Canas [c. 1900]
Perspectiva tirada da Rua da Adiça
Machado & Souza, in AML

Queres ver uma curiosidade? Nota nêste Pátio, na fachada do prédio, à esquerda, cujo ingresso é pela calçada de S. João da Praça — a Adiça, como venho dizendo — as janelas do segundo andar: são quinhentistas, ainda com seus desenhos simples, de aresta quebrada, cujo espírito transcende da materialidade inocente de lavores.
Não notes que eu chame tua atenção para elas: é que em tôda a Lisboa, de Algés ao Poço do Bispo, contam-se pelos dedos os elementos arquitectónicos dêste jeito e idade.

Beco e Pátio das Canas [c. 1900]
José Artur Bárcia, in AML

 
Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. X, p. 51)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Real Colégio Militar

Desde o seu nascimento o Colégio Militar esteve instalado em diversos locais ao longo de toda a sua vida. Inicialmente, foi seu berço a Feitoria (Oeiras), de 1803 a 1813. Por portaria de 1814 o Colégio é transferido para o edifício do Hospital de Nossa Senhora dos Prazeres, na Luz, com a designação de Real Colégio Militar, onde permanece até 1835. Depois passa para a extinta Congregação dos Missionários, denominada de Rilhafóles (o efectivo havia sofrido um aumento substancial, nesta altura), onde esteve de 1835 a 1848. Em 1848 é transferido para Mafra onde fica até 1859. Novamente na Luz até 1870, volta a Mafra até 1873, ano em que regressa para a Luz, onde se tem mantido até aos nossos dias.

Colégio Militar [séc. XIX]
Largo da Luz

António Novais, in AML

O edifício em que está instalado o Colégio Militar tem sofrido várias modificações e ampliações que transformaram um pouco a primitiva traça interior, de que conserva, porém, as linhas gerais. Com a frente voltada para o norte, na qual se notam a  Cruz de Cristo, uma imagem da Virgem e uma inscrição latina, por baixo do escudo de armas da infanta D. Maria, onde se refere o primitivo destino do edifício.

Colégio Militar [1932]
Largo da Luz

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

O nicho existente no pano de muro localizado no corpo e eixo do alçado principal, apresenta-se inteiramente trabalhado com nuvens, querubins e resplendor raiado, envolvendo representação escultórica de Nossa Senhora dos Prazeres sobre peanha.

Ginástica sueca, executada pelos alunos do Colégio Militar no dia da sua festa [21-6-1927]
Largo da Luz

Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

domingo, 15 de janeiro de 2017

Monumento a Cristo Rei

Erguido 215 metros acima do nível do mar e oferecendo uma panorâmica de 360 graus sobre as duas margens do Rio Tejo, o Cristo Rei é um dos pontos de visita obrigatória, um monumento indissociável da imagem de Almada. 
Inaugurado no dia 17 de Maio 1959, o Cristo Rei foi construído como agradecimento por Portugal não ter entrado na II Guerra Mundial.
O arq.º António Lino e o eng.º D. Francisco de Mello e Castro assinaram este monumento, que depois de construído foi esculpido à mão num trabalho de minúcia, desenvolvido a mais de cem metros do chão, da responsabilidade do mestre Francisco Franco. Até as barbas de Jesus Cristo foram suavemente esculpidas no seu rosto.

Panorâmica sobre a zona da portagem da Ponte 25 de Abril [1967]
Artur Inácio Bastos, in Arquivo Municipal Lisboa

Na base do monumento está a capela de Nª. Sr.ª. da Paz, onde se destaca a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, criada pelo famoso escultor Leopoldo de Almeida.
Na entrada do recinto existe um edifício de acolhimento, em frente ergue-se a estátua do Redentor, voltado para Lisboa por uma razão simbólica: ao estar de braços abertos para a capital, todo o mundo português estaria dentro do abraço de Deus.
Na sua construção foram utilizadas 40 mil toneladas de betão armado e custou aos fiéis mais de 100 mil euros. 

Bibliografia
(m-almada.pt)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

As «velhas tílias do Camões»

Mas olha-me esta Praça, Dilecto, e o enfiamento do Chiado: tem a sua graça ingénua alfacinha, e uma ponta de beleza. (...) Hoje ainda possue uma certa harmonia de conjunto nos edifícios sóbrios e nas árvores que a rodeiam — uma das quais um exemplar de tília, por ventura o mais interessante da Cidade, onde se aninham às tardes os «pardais do Camões», que em revoadas chegam dos campos, num espectáculo bem curioso, de uma ternura de cidade romântica.


Praça de Luís de Camões [ca. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Praça de Camões?, sabe? — explicava à irmã uma filhinha do Jaime Cortesão — é um grande largo onde está Camões, no meio, a ler versos e à volta os pardais a aplaudi-lo. Sim, à volta nas árvores, e principalmente naquelas duas tílias da esquina do Alecrim, que deviam ser consideradas monumento nacional, árvores na última hora da tarde tão carregadas de vida inocente que fazem parar e sonhar o lisboeta calcinado pela luta e pelo amargor de todos os dias. Árvores que aplaudem Camões e tornam os homens melhores. 

Praça de Luís de Camões [ca. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa

Finalmente, em Outubro de 1963, a «formosa Praça recebeu importantes modificações» — recorda-nos Mário Costa —  desapareceram os antigos quiosques com o seu capilé e foram acrescentados novos bancos em pedra lioz da autoria de mestre José Luís Monteiro, «coincidindo esse embelezamento, com o forçoso derrubamento da bela e vetusta tília — a «velha tília do Camões» — , que os muitos anos e a doença fizeram tombarUma guarnição de pinheiros mansos, em pleno crescimento, substitui o perdido exemplar botânico e as suas desventurosas irmãs».

Praça de Luís de Camões [ca. 1950]
Poda da tílias
Judah Benoliel, in Arquivo Municipal Lisboa


Bibliografia:
ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. V, 1938
BRANDÃO, Raul, ANGELINA, Maria, Os pardais de Lisboa. Portugal Pequenino, 1930
COSTA, Mário, O Chiado pitoresco e elegante, 1987

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Mercado de Belém, Rua Vieira Portuense e Tv. da Praça

Os prédios desta Rua Vieira Portuense — a poente do antigo Mercado de Belém e da Tv. da Praça — foram demolidas em 1940. O mercado foi poupado e os prédios a nascente foram «alindados para se integrarem, em 1940, na área da Exposição do Mundo Português.

Travessa da Praça [1939]
Antiga Travessa do Mercado; ao fundo, o antigo Mercado de Belém na Rua Vieira Portuense; os prédios (dir.) desta zona de Belém — onde hoje se encontram os Jardins de Belém — foram demolidos para construção da «Exposição do Mundo Português» de 1940. O mercado foi poupado e «alindado» para se integrar na referida exposição
Eduardo Portugal, in AML

O topónimo homenageia Francisco Vieira (1765-1805), pintor, lente de desenho na Academia do Porto, cognominado «Vieira Portuense», por ter nascido nessa cidade, e para se diferençar doutro seu afamado contemporâneo, conhecido pelo nome de «Vieira Lusitano», por ter nascido em Lisboa.
Figura ímpar, entre os grandes mestres da pintura setecentista, Vieira Portuense é um exemplo a seguir pela persistência da sua actividade artística e pelo estudo aturado que o levou a todos os lugares da Europa onde a arte se sacralizava, e fez dele o maior pintor do Século XVIII, com méritos reconhecidos em Itália, Alemanha e Inglaterra, bem como em Portugal, onde D.João VI o chamou à Corte, nomeando-o primeiro pintor da Real Câmara.

Rua Vieira Portuense  [1939]
Antigas ruas do Cais e da Cadeia; à esquerda, o antigo Mercado de Belém

Eduardo Portugal, in AML

O Mercado de Belém — escreve Norberto de Araújo — inaugurado em 1882, e começado a construir em Junho de 1880, substituiu um outro, que existiu em plena Rua Direita de Belém, até àquêle ano. Foi seu construtor Júlio César Viçoso. Representa um quadrilongo, com portas em cada uma das faces, contendo interiormente dois alpendrados. Nada tem de especial; tempo houve, no seu comêço, em que a chegada do peixe a êste mercado constituía um quadro tipico e animado, faina que hoje [1938] passa despercebida.

Rua Bahuto Gonçalves (hoje Jardins de Belém) [post. 1901]
Ao fundo à esq., o Mercado de Belém; do lado direito, vislumbra-se a
estátua-monumento a Afonso de Albuquerque

Alberto Carlos Lima, in AML


Bibliografia
(ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa,  vol. IX, pp. 73-74)
(cm-lisboa.pt/toponimia)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Largo e Chafariz da Princesa

Este topónimo «da Princesa» tem origem na antiga Quinta da Princesa que existiu no local. Esta quinta era propriedade da Infanta D. Maria Francisca Benedita (1746-1829), irmã da Rainha D. Maria I e princesa do Brasil, pelo seu casamento com o Prínipe D. José, seu sobrinho. Fundou em Runa o Asilo dos Inválidos Militares.

Largo da Princesa [c. 1940]
Chafariz da Princesa

Eduardo Portugal, in AML

A 17 Janeiro de 1850 na sequência de um aviso do marquês de Fronteira, então Governador Civil, sobre a necessidade de se procederem a limpezas no sítio de Pedrouços devido a um surto epidémico, a Câmara de Lisboa ordenou não só as necessárias limpezas mas também a construção de um chafariz, pela necessidade de água potável no local.
Surge assim o Chafariz da Princesa, implantado no centro do Largo da Princesa, nome que se refere à princesa D. Maria Francisca Benedita que possuiu no local uma quinta. O Chafariz foi construído sob responsabilidade camarária com pedraria oferecida pela rainha D. Maria II, a qual era a proprietária do Casal de Paio Calvo onde se localizava a mina que o abastecia.
O projecto deve-se ao arquitecto da Câmara, Malaquias Ferreira Leal, com a colaboração do Mestre Geral das Águas Livres, José Félix da Costa. É inaugurado a 19 de Junho de 1851.

Chafariz da Princesa [s.d.]
Largo da Princesa

Eduardo Portugal?, in AML


Bibliografia
(CORREA DA SILVA, Isabel, SEIXAS, Miguel Metelo de, Belém,  ed. Junta de Freguesia de Sta. Maria de Belém, 2000)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Max Cine: o Piolho do Alto do Pina

O Max-Cine, a elegante sala da Rua Barão de Sabrosa, ao Alto do Pina — noticiava a revista  Cinéfilo em 1931 —, que recentemente inaugurou os seus espectáculos sonoros com vivo e justificado êxito, resolveu, num gesto de simpatia e apreço que muito, nos desvanece, dedicar a todos os leitores e compradores do Cinéfilo as noites das quartas-feiras, concedendo-lhes o importante desconto de cinquenta por cento em todos os lugares.
Nessas noites, os nossos sempre fieis e estimados leitores, que Sê apresentarem na bilheteira, com o cupão que noutro lugar publicamos, beneficiarão do o referido desconto em todos os espectáculos que se realizarem nas mencionadas quartas-feiras. (...)

Rua Barão Sabrosa; Rua Dr. Oliveira Ramos [1927]
Em exibição "A Fera Amansada", filme de Sam Taylor 
com Mary Pickford, Douglas Fairbanks
Fotógrafo não identificado, in Arquivo do Jornal O Século

A 14 de Setembro de 1929, o bairro do Alto do Pina vê nascer o Max Cine na Rua Barão de Sabrosa. Projectada pelos engenheiros Jacinto Bettencourt e Deolindo Vieira, era uma sala sóbria mas acolhedora com capacidade para 700 pessoas. Era essencialmente um cinema de reprise que a 1 de Maio de 1968 é adquirido pela Paróquia de São Evangelista passando assim a servir a população de uma forma distinta.

Rua Barão Sabrosa; Rua Dr. Oliveira Ramos [1962]
Arnaldo Madureira. in AML

Bibliografia
(Cinéfilo, Vol. 4, 1931, p. 338)
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