quarta-feira, 3 de maio de 2017

Do Vasto e Belo Porto de Lisboa

Do outro lado da linha — relembra-nos Norberto de Araújo —, encontramos as tuas conhecidas docas, cais acostável, Pôsto Marítimo de Desinfecção, ponte giratória e oficinas navais da Administração Pôrto de Lisboa. estas arrendadas por dez anos, desde 1 de Janeiro de 1937, à Companhia de União Fabril.

É nêste sitio que se situa — pode dizer-se — o coração do Pôrto de Lisboa. A extensão do pôrto é de 25 quilómetros, e a sua área de molhes ocupa 8.736 hectares. As suas cinco docas sêcas variam em comprimento, entre 42 e 180 metros. (...) [1]

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh'alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito. 

Vista do Porto de Lisboa, Cais da  Rocha do Conde de Óbidos [1919]
Perspectiva tirada do Miradouro da Rocha do Conde de Óbidos
Autor desconhecido

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Santos  [entre 1906 e 1910] 
Posto Marítimo de Desinfecção, vendo-se o navio de passageiros Alemão "Oreana".
Fotógrafo não identificado, in AML

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Alcântara [1936]
Autor desconhecido

Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte....
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh'alma... [2]

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Alcântara [1935]
Autor desconhecido

Bibliografia
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. XIII, [1939])
[2] (Álvaro de Campos (Heterónimo de Fernando Pessoa), Ode Marítima, 1890)

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