sexta-feira, 12 de maio de 2017

Madame Brouillard: a «bruxa do Chiado»

«Ir consultar a Madame Brouillard» — anotou Fernando Pessoa, entre outros afazeres projectados, numa folha de agenda de 1913, mas não se sabe se algum dia chegou a realizar o seu intento. Pessoa iniciara-se já nas artes da astrologia e numerologia, conversava com espíritos e andava imerso nos textos da escola teosófica da russa Madame Blavatsky


Ao longo de 1915, como nos anos anteriores e ulteriores, a quiromante e fisionomista Madame Brouillard (palavra francesa para nevoeiro) publicou semanalmente um anúncio na llustração Portugueza [, oferecendo os seus serviços. As consultas, procuradas por gente da alta-roda, tinham lugar no seu gabinete à Rua do Carmo, 43 [2ª imagem], em Lisboa, e um custo que variava entre 1$000 e 5$000 réis. Um célebre governante da Monarquia, João Franco, tinha sido seu cliente. 
A «bruxa do Chiado», como também era designada, era uma transmontana de Vila Real, nascida em 1852, de seu verdadeiro nome Virgínia Teixeira, que em jovem tinha corrido mundo. De Espanha, para onde teria sido levada por um marido, passara à França, à Rússia e ao Brasil, até por fim estabelecer consultório numa sobre-loja da Baixa lisboeta. Amassou boa fortuna, ao ponto de se ter tornado proprietária do prédio em que exercia a sua profissão. Dizia falar seis línguas e ter predito no Brasil a queda do Império (1889), como apregoava no seu anúncio, mas não se sabe se em Portugal foi tão certeira na ante-visão do fim da Monarquia e do que se lhe seguiu. 

Anúncio inserto na llustração Portugueza, 5 de Novembro de 1915

O êxito de Madame Brouillard contribuiu para multiplicar o número de videntes, cartomantes, sonâmbulas e quiromantes que apareceram a fazer-lhe concorrência na capital. Percorrendo os jornais e revistas daquele período, entre anúncios de médicos e advogados, elixires para a queda de cabelo, pastilhas para a virilidade, xaropes para a tosse, cremes para as hemorróidas e depurativos para a sífilis, ficamos a conhecer os nomes de algumas dessas pitonisas. Mademoiselle Rolland, à frente de um propalado «Instituto Electro-Magnético», ocupava-se exclusivamente de casamentos e amores não correspondidos. Mademoiselle Tula, uma sonâmbula, tratava de amor, negócios e doenças. Madame Virgínia, vidente cartomante, dizia o passado, o presente e o futuro, com o início da guerra, a avalanche de videntes aumentara. 
Em 1916, A Capital desencadeará uma campanha contra «magos, bruxos e nigromantes», neles incluindo astrólogos e grafólogos, toda uma «charlatanesca multidão de exploradores», que invadira a capital e cuja acção era comparada a (um veneno subtil que pouco a pouco se ia instalando no «organismo social». O clima de incerteza provocado pela guerra aumentou a procura, mas o que alimentava mais o negócio eram as questões amorosas. Como alternativa às videntes, havia os livros. Em 1915 publicou-se O Triunfo do Amor: Como se Domina a Mulher, de Octave Fardel, que além de ensinar a conquistar, também indicava o modo de conseguir que «uma pessoa nos esqueça em absoluto»[1] 

Rua do Carmo [ca. 1903]
Na s/loja do prédio nº 43, que se vê do lado esq., funcionava o consultório de

Madame Brouillard, prédio esse que veio mais tarde à posse da vidente
Alexandre Cunha, in Arquivo Municipal Lisboa


Bibliografia 
[1] (BARRETO, José (2015). O ano do Orpheu em Portugal. In Steffen Dix (Org.) 1915: o ano do Orpheu, pp. 79-81)

4 comentários:

  1. Eu não fazia ideia da existência na Lisboa de Pessoa, de uma tão relevante precursora da nossa bem conhecida Maya.

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    1. O que só vem provar que os vendedores de banha-de-cobra são intemporais.

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