sexta-feira, 5 de maio de 2017

Os duelos na Estr. da Ameixoeira

Os duelos em defesa da honra aparecem abundantemente mencionados na obra literária de Eça de Queiroz. Em Os Maias, por exemplo, a páginas tantas, Ega informa Carlos da Maia de que Dâmaso Salcede anda a difamá-lo a ele e a Maria Eduarda. Carlos fica furioso, querendo matá-lo e desafia-o para um duelo.  O  duelo — escreve Eça — devia  ser  à  espada  ou  ao  florete,  um  desses  ferros cujo lampejo, na sala de armas do Ramalhete, fazia empalidecer o Dâmaso. Se contra toda a verosimilhança ele se batesse, Carlos fazia-lhe algures, entre a bochecha  e  o  ventre,  um  furo  que  o  cravasse  meses  na  cama. [1]


O duelo de honra ainda era, em 1915, uma instituição social e política em Portugal. Não era legal, pois desde l852 que o código penal estipulava penas correccionais para os duelistas e suas testemunhas, mas as autoridades fechavam os olhos ou transigiam muito na aplicação da lei. Apesar da proibição do duelo e da sua condenação pela igreja, por volta de 1900 um oficial ainda podia ser expulso das fileiras militares caso recusasse bater-se pela sua honra. com a República, a instituição do duelo começaria a declinar, mas não de imediato. No passado, vários políticos republicanos, como Afonso Costa [2º foto], tinham-se batido em duelos famosos. os duelistas eram principalmente políticos, militares, advogados e jornalistas, de qualquer quadrante político. Batiam-se de florete ou sabre e, mais raramente, à pistola.

Duelo entre Cristóvão Aires de Magalhães (de costas) e Óscar Monteiro Torres [16 de Junho de 1915]
Estr. da Ameixoeira (junto a Calçada de Carriche)
Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal de Lisboa

A Ilustração Portugueza, que não falhava o relato desses combates, noticiou a 28 de Junho de 1915 dois duelos ocorridos pouco antes. O mais documentado era um duelo de sabre que teve lugar na Estrada da Ameixoeira entre Cristóvão Aires, ex-capitão de infantaria, de 34 anos, e Óscar Monteiro Torres, tenente de cavalaria, de 26 anos, à data chefe de gabinete do Ministro da Guerra. Os duelistas tinham posições contrárias quanto à participação de Portugal na guerra europeia: o republicano Monteiro Torres, era a favor dessa participação, o monárquico Cristóvão Aires era partidário da neutralidade. Ao sétimo assalto, Cristóvão Aires foi ferido no braço (Portela, s.d.). Monteiro Torres seria pouco depois o primeiro português a obter um brevet de aviador e veio a morrer num combate aéreo em França, em 19 de Novembro de 1917, depois de abater dois aviões alemães. Foi o primeiro e até hoje único piloto aviador português a morrer num combate aéreo. Além de professor do Colégio Militar, Cristóvão Aires foi também jornalista e historiador, continuando a obra História Orgânica e Política do Exército Português, do homónimo general seu Pai. [2]

Duelo entre Afonso Costa (de costas) e o Conde de Penha Garcia [14 de Julho de 1908]
Afonso Costa do Partido Republicano.e o Conde de Penha Garcia do Partido Progressista. O duelo entre republicano e monárquico foi provocado por o primeiro ter dito que o segundo, enquanto ministro da Fazenda, dera 1,8 milhões de réis ao irmão do malogrado rei D. Carlos

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/leonardo-ralha/detalhe/os_duelos_na_ameixoeira?
Estr. da Ameixoeira (junto a Calçada de Carriche)
Joshua Benoliel, in Arquivo Municipal de Lisboa

Bibliografia 
[1] (QUEIROZ, Eça de, Os Maias, 1888) 
[2] (BARRETO, José (2015). O ano do Orpheu em Portugal. In Steffen Dix (Org.) 1915: o ano do Orpheu, pp. 78-79)

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