domingo, 28 de fevereiro de 2016

Capela de Santo Amaro

«Reza a lenda que uma capela foi fundada no Alto de Santo Amaro por alguns frades da Ordem de Cristo que, no regresso de Roma (no século XVI), apanharam temporal no mar e, perante o receio de perecerem no naufrágio, prometeram a Santo Amaro levantar uma ermida no local onde dessem à costa, sãos e salvos. A capela referida na lenda foi, ao que se julga, transformada em sacristia da actual ermida, representativa do estilo renascentista, embora incorpore soluções estruturais góticas.» [1]

Ermida de Santo Amaro, datada de 1549

Implantada numa colina sobranceira ao Rio Tejo, perto do vale de Alcântara, a Capela de Santo Amaro foi edificada em 1549, conforme indica a inscrição colocada sobre a porta principal do templo. O projecto desta ermida de planta centralizada, única na cidade de Lisboa, é atribuído a Diogo de Torralva, um dos grandes arquitectos do século XVI português, que tão bem explorou e entendeu o novo gosto do Maneirismo, nomeadamente as vias da tratadística italiana da época.

Capela de Santo Amaro, Alto de Santo Amaro, traseiras [entre 1962 e 1966]
Ao fundo a Ponte 25 de Abril em construção
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Artur Inácio Bastos, in AML

Na verdade, a Capela de Santo Amaro destaca-se pela singular, e erudita, estrutura centralizada, composta por "(...) dois cilindros secantes de inspiração serliana, a que se agrega uma original galilé de planta semicircular (...)" (CORREIA, 1991). Espaço ímpar no panorama arquitectónico português, este templo terá sido inspirado numa gravura do tratadista Sebastiano Serlio, que representa o mausoléu dos Crescenzi, na Via Appia, em Roma (MOREIRA, 1995, p. 352).

Capela de Santo Amaro, Alto de Santo Amaro, fachada [ant. 190-]
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Paulo Guedes, in AML

A par com a capelinha de Bom Jesus de Valverde, em Évora, e a capela do Paço de Salvaterra de Magos, é um dos poucos espaços religiosos quinhentistas a explorar a planta centralizada, que voltará ao panorama arquitectónico português apenas na segunda metade da centúria seguinte.
O núcleo da estrutura é o espaço circular do oratório, envolvido em metade da sua área pela galilé semicircular, que compõe a fachada, à qual corresponde, do lado oposto, a pequena capela-mor, também cilíndrica.

Portal de pedra no adro da Capela de Santo Amar[ant. 1966]
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Artur Inácio Bastos, in AML

Aberta por uma arcada de cinco vãos, dois dos quais são cegos, a galilé é coberta por abóbada de nervuras abatida, com fechos decorados com símbolos alusivos ao santo padroeiro, cruzes de Cristo, florões e estrelas. Os três arcos principais foram fechados, no século XVIII, com portões de ferro forjado.
As paredes deste espaço estão totalmente revestidas por azulejos polícromos tardo-maneiristas, organizados em dois registos, cujas figurações centrais, alusivas a Santo Amaro, são envoltas por ferroneries, putti, motivos de grutesco e pendurados. Nos vãos cegos da arcada foram erigidos dois altares de estrutura maneirista, em trompe l'oeil, executados em azulejo policromo.

Escadinhas e Cruzeiro de Santo Amaro [c. 1940]
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Fernando Martinez Pozal, in AML

O acesso ao interior é feito através de três portas, abertas na galilé, estando gravada sobre a porta principal uma inscrição alusiva à data de fundação da capela. A nave circular é coberta por cúpula semi-esférica com lanternim, possuindo coro-alto, ao qual se acede pelo terraço. Um arco de volta perfeita, sem qualquer decoração, abre para a capela-mor, também coberta por cúpula semi-esférica, que ao centro alberga retábulo de talha azul e dourada em estilo nacional. Contígua à capela-mor foi construída a sacristia.
Celebrada a 15 de Janeiro, a romaria de Santo Amaro era uma das mais concorridas da cidade, tendo sido realizada pela última vez em 1911. Com o advento da República, a ermida foi abandonada e saqueada, chegando a servir de carvoaria. Em 1927 foi entregue à Irmandade do Santíssimo Sacramento, e no ano seguinte o espaço foi reabilitado para o culto.[IGESPAR]
  
Cruzeiro de Santo Amaro [s.d.]
Portal de pedra no adro da Ermida de Santo Amaro
Fotógrafo não identificado, in AML

 [1]  (Bellem/Belém, Reguengo da Cidade)

10 comentários:

  1. Bela gravura e fotos. São, só por si, um Património a preservar. Parabéns pela divulgação. Ab. AA

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  2. Adorei as fotos e todo este Património a recordar a minha infâcia.

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  3. Nasci e cresci no Alto Sto. Amaro. Na Capelinha assistia à missa dominical e aqui fiz a catequese. Também era um espaço de convívio ao sair da missa e depois das aulas de catequese. Grandes e boas recordações guardo desta Capelinha. Depois deste espaço ter passado um periodo de quase abandono o ano passado fui visitar o espaço e fiquei muitíssimo satisfeita por estar novamente aberto e voltaram a celebrar missa no 1º domingo de cada mês! Está em recuperação mas ainda falta muito.

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  4. É sempre bom saber que, de quando em vez, ainda se fazem coisas úteis pelo património cultural da cidade.

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  5. Por aqui cresci e passei a adolescencia. Tal como nas fotos, vi a ponte crescer. A admiravel atmosfera de paz e calma, contrastando com a lufa-lufa ribeirinha e citadina proporciona uma saudavel perspectiva e distancia ao que se passa em redor. Admiravel !

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    1. Local aprazível, sem dúvida, com uma vista privilegiada.

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    2. Recordei um dos dias mais felizes da minha vida, o dia do meu casamento nesta linda capela

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  6. Ao ver a capela lembrei-me de um dos dias mais felizes, o dia do meu casamento. Já lá vão 37 anos. Foi escolhida por mim e pelo Eurico para o nosso enlace por ser muito bonita.

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