Wednesday, 7 September 2016

Igreja de Santa Engrácia; as obras eternas e uma lenda

Estamos defronte de um monumento nacional, de singular expressão arquitectónica, único, talvez, no país, nem conservado nem abandonado, rico de forma-e triste aparência: o templo inacabado de Santa Engrácia. Melhor o designaremos, como o vulgo, e dentro do estribilho alfacinha, por «Obras de Santa Engrácia».

Obras — porquê? De Santa Engráeia — porquê?

   
   Em 1569, desanexada de Santo Estêvão, constituiu-se a nova paroquial de Santa Engrácia, cuja Igreja sede foi erecta neste sítio entre aquêle ano e o de 1578. Era um templo pequeno mas suficiente, ao estilo seiscentista, certamente modesto. Em 15 de Janeiro de 1630, produziu-se na Igreja, de noite, um sacrilégio, o qual, dentro do espírito da época, provocou a mais profunda indignação e deu aso a solenes manifestações de penitência e piedade: haviam arrombado a porta do sacrário do Santíssimo e roubado as sagradas partículas.
   Projectou-se, em desagravo, erguer um templo novo, e logo a igreja foi considerada em profanação, e a paroquial transferida para a já citada Ermida do Paraíso, onde o culto normal continuou,  com excepção das festividades solenes que se realizavam em S. Vicente.
   Ia a nova Santa Engrácia quási concluída quando (1682) aconteceu cair a cúpula, incidente gravíssimo e que deve atribuir-se a erro de engenharia, por falta de precisão no cálculo. 
   Aqui se enxerta uma história romântica que mais adiante resumo. 

Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional) [c. 1900]
Campo de Santa Clara
José Artur Leitão Bárcia, in AML
  
    Foi então encarregado de erguer novo e magestoso templo um ilustre artista, João Antunes, arquitecto de D. Pedro II, mas sendo de crer que aproveitasse grande parte do que já estava feito, embora o seu risco, ao que se deduz de velhos escritos, fôsse mais rasgado do que o primeiro.
    A forma orbicular da nova Igreja mantinha-se contudo, e, assim, subsistia a dificuldade do remate na cúpula acima da cimalha real. Os arquitectos hesitaram, pois o fracasso da anterior construção constituía um aviso.  
   Veio o Terramoto. As sólidas paredes resistiram na sua mole de pedra; a cúpula não caiuporque a não havia. Nunca se acabou Santa Engrácia; obras eternas: «obras de Santa Engrácia. (...)
   Santa Engrácia, Dilecto, é isto que vês, indiscutivelmente belo e triste. Chega a confranger os menos devotados a cousas de arte e pouco zelosos do destino dos edifícios sacros.
   Por diploma de 29 de Abril de 1916, êste monumento foi destinado a Panteon Nacional.

Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional) [1908-02-08]
Funeral de Dom Carlos e de Dom Luís Filipe; Campo de Santa Clara
Chaves Cruz, in AML
    
   Agora cumpre referir, em duas palavras, o romance episódico que se liga à história das «Obras de Santa Engrácia». Acusado de ser autor de sacrílego roubo foi preso um jovem hebreu, Simão Pires Solis,  não soube ou não quis defender-se nos interrogatórios, e, condenado, foi queimado vivo. Diz-se — e é aqui que entra a lenda — que momentos antes do sacrifício dissera: «Tão certo eu morrer inocente, como as obras de Santa Engrácia nunca se acabarem». E não acabaram. 
   Afinal o moço andava de amores com uma freira de Santa Clara [Violante, de sua graça] e só por essa circunstância não quis revelar o que fazia «por aqui» quando, por suspeito noctívago, o prenderam.
   Exposta a lenda com fundo verídico demos uma vista de olhos a Santa Engrácia. [1]

Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional) [1966]
Construção da cúpula; Campo de Santa Clara
Garcia Nunes, in AML

As obras da actual igreja só foram concluídas somente em meados do séc. XX, com a construção da cúpula. Tinham passado 284 anos. Desde então alberga o Panteão Nacional, encontrando-se em 2 torreões distintos os túmulos dos Presidentes da República e de artistas célebres. De planta octogonal, centralizada por uma cruz grega, de topos arredondados, inscrita num quadrado formado por 4 torreões-bloco, apresenta a sua fachada principal rasgada por um portal enquadrado por colunas salomónicas de capitéis compósitos e remate de baixo-relevo com a padroeira. [cm-lisboa.pt]

 Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional) [1966]
Campo de Santa Clara
Garcia Nunes, in AML

Bibliografia:
[1] (ARAÚJO, Norberto de, Peregrinações em Lisboa, vol. VIII, pp. 81-83)

4 comments:

  1. Onde certamente será sepultado Cristiano Ronaldo, esperemos que daqui a muitos anos.

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  2. Estive lá nesse dia! Morava no nº47-2º do Campo de Santa Clara(aliás onde nasci. Atualmente vivo na linha de Sintra.
    Muito bem! Obrigado! Muito agradecido ao Blogue, pela oportunidade do meu comentário.
    Manuel Paula

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