sábado, 10 de junho de 2017

Avenida da Ribeira das Naus

A historia da Ribeira das Naus — diz mestre Castilho — se alguém a podesse escrever completa, seria um dos capítulos mais interessantes da nossa chronica nacional, com as apreciações do computo das despezas feitas, o desenho da physlonomia da arte náutica ao longo dos successivos reinados, a chronica fidedigna da valente Marinha militar ponugueza, a nomenclatura dos navios ali construídos, e a biographia dos nossos habilissimos mestres. [Castilho, 1893]


Lisboa estende-se ao longo do Rio Tejo, concentrando as múltiplas actividades ligadas à navegação, à pesca, ao comércio das mais diversas mercadorias.
A zona, designada de Ribeira das Naus, organizava-se, ontem como hoje, em torno do Cais do Sodré, e incluía também os estaleiros de uma importante construção naval que marcou durante vários séculos a economia portuguesa.

Vista aérea da Avenida da Ribeira  das Naus (poente) [1952]
Praça do Comércio; Cais do Sodré; Avenida 24 de Julho; em baixo à direita, a Estação Fluvial Sul e Sueste
Autor desconhecido

Conquanto já desde longo tempo houvesse nesta zona marinha da cidade uma fama construtiva de embarcações, foi só no reinado de D. Manuel, por 1501, que essa actividade.de se acentuou, e começou-se a chamar ao local Ribeira das Naus, correspondendo cm situação e em funções ao actual Arsenal da Marinha, como passou a denominar-se desde 1774. O Decreto n.º 29.595, de 13 de Maio de 1939, extinguiu a Direcção das Construções Navais, e com ela o Arsenal da Marinha, que se encerrou nessa data.

Doca da Ribeira  das Naus (actual Praça Europa) [c. 1918]
Lançamento à água da navio "Mandovi", construído no Arsenal da Marinha, navegou como canhoneira da Classe Beira desde 1918 a 1056.
Autor desconhecido

Seguida, mas vagarosamente, começaram a ser demolidos os barracões das instalações fabris e a terraplanou-se o terreno para a construção duma avenida marginal entre a Praça do Duque da Terceira e o canto sudoeste da Praça do Comércio, ao sul do torreão do Ministério da Guerra.

(Avenida) Ribeira  das Naus [c. 1939]
À direita e ao fundo vêem-se os edifícios fabris do Arsenal da Marinha antes das demolições
Eduardo Portugal, in AML

A avenida marginal referida, que foi construída com carácter provisório, recebeu o nome de Avenida da Ribeira das Naus [1], e foi aberta ao público em 9 de Agosto de 1948.
A sua largura é de 12m na faixa de rodagem, calçada com paralelepípedos de granito e alcatroada, e de 1,5m nos passeios laterais.
Tem, da banda do rio, uma cortina de alvenaria com capeamento de betão, e a cortina de vedação do lado do recinto do Arsenal está feita provisoriamente com um muro de tijolo com pilastras divisórias e de reforço.

Avenida Ribeira  das Naus [195-]
À esquerda o local do antigo Arsenal da Marinha que se  vêem na foto acima; à direita o Largo do Corpo Santo; ao fundo o Cais do Sodré
Judah Benoliel, in AML

Para memória de que havia sido aí o local onde se construíram quase todas as caravelas, naus e outros barcos de guerra desde o século XVI até aos meados do XX [2] , e que por todos os mares do mundo tornaram conhecido e afamado o nome de a Câmara Municipal de Lisboa mandou afixar no topo da ala da Sala do Risco, uma nau esculpida em pedra, do brasão de armas da cidade, e por baixo dela a seguinte inscrição:
NESTE LOCAL | CONSTRUIRAM-SE AS NAUS | QUE DESCOBRIRAM NOVAS | TERRAS E NOVOS MARES E | LEVARAM A TODO O MUNDO | O NOME DE PORTUGAL | MANDADA COLOCAR PELA C. M. L. NO ANO DE 1948.

[1] Edital de 22 de Junho de 1948, e Diário Municipal de 25 do mesmo mês. 
[2] As últimas naus portuguesas construidas na Ribeira das Naus, foram, nos  meados do século XIX, a D. João VI e a Cidade de Lisboa (1841) que depois se crismou em Vasco da Cama (Anais das Bibliotecas, Arquivo, etc., n.º 12, 19Sl, pág. 28); o último barco de guerra construido no Arsenal da Marinha foi o aviso de 2.ª classe João de Lisboa, lançado à água em 21 de Maio de 1936. 

Bibliografia
(CASTILHO, Júlio de) A Ribeira de Lisboa, p. 461, 1893)
(VIEIRA DA SILVA, Augusto, Dispersos vol. I, pp. 389-391, 1968, Biblioteca de Estudos Olisiponenses)

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